Zine ZerØ ZerØ

Porque tudo começa do zerØ____e pro zerØ até pode voltar.

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O título deste post é isso mesmo: eu ando tão down! É coisa que acontece, ninguém pede, pinta e te derruba. Pô... Sabe aquilo, não quero nada? não desejo? Encheu o saco, fica proutro dia, deita, pega um lençol, mas não descança. Depressão é o nada mental. Pode vir do monte de informação na cabeça, que acaba perdendo o sentido. Pode vir de um amor que não acontece, que te desprezou. Pode vir do desemprego, da falta de fé no futuro. A paisagem cinza, essa coisa urbana, sem verde - maior deprê também. O inverno europeu dizem que mata o sujeito. Pode vir da rotina, do relógio, aquele troço chato que só faz tic-tac, que saco! Dizem que pobre não tem disso, que depressão é falta de porrada, mas não sei... Acho que não é assim não, o povo fala muito e tenta disfarçar as fraquezas. Estava lendo o blog do Ferréz e ele descobriu que pobre também tem depressão. Então, ficamos assim: o Ferréz entra com A Natureza do Nego J, para falar de um sonhador que perdeu a fé na favela. Eu, Poeta Xandu, entro com uma história do asfalto, com o título Maior Sujeira. Huuum... Isso vai dar problema, o Ferréz não sabe que sou fã do seu blog, já coloquei um texto dele, agora outro... Pedi, não recebi resposta... Eu gosto do que ele escreve. O chato disso é que se ele brigar comigo eu posso cair em depressão. Hiiii! Tomar bolinha, remédio tarja preta? Tô fora! Ferréz, pode brigar!
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Deprê de ASFALTO - no apê não vai ter festa...
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Maior Sujeira (Poeta Xandu - 26/06/2006)
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4 reais no bolso. Será que dá? Uma bruta faxina para fazer em casa e me falta o Porfex. Um daqueles panos furadinhos, cujos furinhos encaixam-se perfeitamente sobre a poeira. Uma vez dentro do furinho a poeira não sai mais, como se fosse um ônibus, o pano a leva para uma viagem. Depois é só afundar no balde com água e a poeira se dissolve. Não sai completamente, o pano ainda fica manchado, sujo. Mas aí você põe debaixo da água corrente, abre bem a torneira e vai alternando – uma no balde, outra na torneira. Fica limpo. Quase limpo. Quase novo. De toda forma, é descartável, depois compra-se outro. 4 reais no bolso. 4 meses sem emprego. O desânimo é incrível, com o tempo me faz ficar parecido com o pano furadinho – cheio de poeira. Deixo a barba por fazer. Envolvo-me com programas de TV. Esqueço de lavar as panelas. Conheço melhor os vizinhos, isso é verdade. O de cima fez uma reforma no apartamento, derrubou a parede de um dos quartos para ampliar a sala. Uma coluna d´água do prédio está sendo trocada – pude escutar as marretadas na parede do vizinho ao lado. No de baixo, a filha do morador do 202 mandou fazer uma reforma completa. Vai ter bebê. Trocou o piso, ampliou a sala, ficou uma beleza. Eu acho. Parece uma tendência nova – fazer reformas. Fazer barulho e muita poeira. 4 reias no bolso. O desemprego deixa as pessoas mais criteriosas. Afinal, por que não usar a velha flanela reciclável? Desta forma sobraria um dinheiro, talvez sair e beber uma cerveja. Duas, das mais baratas do boteco. Já marquei de fazer essa faxina há algum tempo, marquei comigo mesmo. Todas as vezes que marquei, deixei de tomar banho pela manhã. Iria me sujar mesmo. Mas não. Leio os classificados do jornal, computadores, carros, apartamentos – nenhum emprego. Desanimo de tudo. Tento esquecer. Ouço meus discos velhos, vejo um programa qualquer na TV. Almoço e isso me dá o maior sono. Barba por fazer, sujo e com a idade estou ficando careca. O pano quando é passado em cima da poeira, da grossa, ás vezes fica sujo para sempre. Desemprego é maldição, ir para o boteco e tomar duas cervejas é o clichê do desempregado. Uma sina a ser contrariada. Dar carona para as malditas poeiras, marcas de um tempo em abandono. Quando era bem pequeno, a escola pediu-me para fazer uma redação. “O pingo”, era o título. O pingo d’água ao cair no chão tornava-se a casa das poeiras. O que elas faziam morando no pingo? Nado... Nadavam, provavelmente. Não me lembro do final da história. Eu era menino, cheio de ilusões e nem pensava no futuro da nação. Essa sujeira. Naquela época não existia pano furadinho. Só flanela. Essa é conhecida por empurrar a poeira. Da estante para a mesa, da mesa para o chão. Depois era só varrer. Não transportavam a poeira, pois não existia pano com esses buraquinhos. Esses buracos são ótimos. Coisa recente, moderna. Naquela época, de quando escrevi sobre o pingo e a poeira, morava na casa da minha bisavó, no Catumbi. Não havia vizinho parede com parede, de cima, de lado, em baixo – era casa. Daquelas com azulejo de santo na fachada, das antigas casas portuguesas. Não, minha bisavó era africana, afro-brasileira, mulata, carioca mesmo. Quase negra, mas isso é outra história. Importa é que a vida era mais calma. Não tinha tanta marretada, nem reforma, nem arquitetura moderna, de embelezamento. A casa era ampla e os móveis, e os aparelhos domésticos, duravam. Mudavam de vez em quando, mas eram substituídos lentamente. Agora não. Acompanha-se a moda, todos os dias. As reformas... Os apartamentos e as coisas estragam mais rápido também. Não sei se sou responsável por tanta poeira em minha casa, ou se os vizinhos estão fazendo mais poeira que o normal. Ou se o normal é a poeira, que está nas ruas, nos canos de descarga dos carros, nas chaminés das fábricas, saem dos novos prédios em construção. O prefeito está fazendo um quebra-quebra nas calçadas, dizem que é negócio de TV a cabo. Vou meter um processo, quero meus direitos à limpeza pública! Isso envolve demais a gente. A poeira está nessas obras, nesses vizinhos loucos, nessa urbanidade, buraco e sujeira. Veja minha condição – estou desempregado. O desemprego me empurra para a poeira e a poeira me expulsa de casa. É uma britadeira na minha cabeça. Deve existir algum direito do desempregado... De hoje não passa. 4 reais no bolso. A flanela definitivamente é coisa do tempo da vovó. Essa poeira nervosa, esse mundo maluco, esse desemprego, devem ser combatidos de frente. Vou ao super-mercado. Chego cheio de certezas, mas aquelas luzes, produtos e coisas gostosas... Os super-mercados são lugares onde não posso ir, são muitas opções, muitas as coisas que gostaria de comprar. É doença de desempregado querer consumir, gastar dinheiro. Veja o danoninho! Quanto tempo não como um iogurte de morango? Preço de 1,69. Mas e o pano? Deixe-me ver... Da marca Porfex custa 3,49. Por um paninho? Muito caro... Há! Encontrei desta outra marca, Zéflex. Cadê o preço? Não encontro. Acabaram com as etiquetas adesivas nos produtos, os preços ficam no canto, no amontoado de plaquetas. E no meio de tantas plaquetas desordenadas se perde o preço das coisas. Espere aí... Além da marca Zéflex, há a Ruimflex. Também sem plaqueta de preço. Bom, levo as três qualidades de pano e na boca do caixa peço para a moça me dizer o preço. Avalio e talvez ainda dê para levar o danoninho. No caixa a moça pede para uma outra atendente ver os preços dos dois panos enigmáticos. Ela mesma não sabe. Olha a diferença: o Porfex custa 3,49; o Ruimflex custa 2,39; mas o Zéflex apenas dois reais! Ainda sobra para o danoninho! Daí a moça registra o danoninho – três reias. Ué?! Achei que o preço era outro... 1,69 talvez... Tudo bem, pensei, o pano com furinhos é bobagem minha. É só usar a boa e velha flanela. É a mesma coisa, só dá mais trabalho, um pouco. Chego em casa e me lembro do pano Zéflex. Estava barato mesmo. Burrice a minha ter dado o iogurte para registrar primeiro, mas na minha cabeça o preço daria para levar os dois. Daí, uma mania de desempregado é esconder dinheiro de si mesmo. Para nas horas mais difíceis ser achado. Empurro os móveis, olho em cima da geladeira. Só encontro poeira. Desenrolo as meias, remexo as cuecas, o fundo das gavetas. Está lá! A nota de dez. Dez pratas escondidas. Eu sabia que ainda tinha algum dinheiro qualquer escondido. Volto ao super-mercado. Por via das dúvidas, levo o danoninho para verificar se realmente paguei pelo preço da plaqueta. Caso fosse isso mesmo, eu poderia chamar o gerente, reclamar, exigir o preço original. Iria até a defesa do consumidor, caso necessário. Não. Era isso mesmo. O preço na promoção era pro iogurte dietético com a validade estourando. Além do mais, possui um gosto horrível de plástico doce. Tantas plaquetas, você acaba se perdendo. Olha como é: o Diet, a marquinha, vem pequenina na plaqueta, quase não se vê. As plaquetas de preço são pequeninas também, e confusas, desordenadas. Enfim, quiseram me enganar, pois deste pano, que iria levar, nem plaqueta tinha. Só no caixa. Dessas dez pratas levarei dois panos de uma vez. Está barato. E a poeira, sabe como é, pode pintar a qualquer momento. Maior sujeira. Já na rua, seguindo de volta pra casa, escuto uma voz. - Ei! Parceirinho! - Eu? Está falando comigo? - Você mesmo, parceirinho! Nunca vi esse tipo na minha vida - me seguindo na rua! O coração bate mais forte. É assalto! Sequestro?! - Pois é, você pegou o danoninho e não pagou. Devolve. - Mas, mas, mas... - Nada de mas-mas-mas! devolve agora! Daí expliquei a história, que havia comprado antes. Olha a nota fiscal! Expliquei as plaquetas, confusas, o preço... - Tudo bem, mas da próxima vez avise ao gerente. Foi um engano, uma confusão. Cheguei no prédio e comentei com o porteiro como havia me assustado à toa e nada devia a sociedade. Falei até em reclamar ao gerente. Afinal, esse procedimento, abordar as pessoas na rua, estava errado. Fiquei assustado. E o porteiro retruca que seria besteira. Eu é que deveria anunciar a troca ao gerente. Mas não era troca, não necessariamente... Ainda as plaquetas, isso era para enganar o freguês... Não convenci o porteiro. Eu poderia chamar a defesa do consumidor, eu poderia reclamar na polícia... Não. Ninguém iria confiar. Falaria com o gerente, com a polícia, com o porteiro e todos teriam mais razão que eu. Pensei: sem banho, barba por fazer, desempregado e usando esse boné, para esconder a careca frente a multidão – ninguém confiaria. Sou suspeito, típico suspeito. O arquétipo do meliante deve ser abordado na rua, na frente de todos. É para segurança de todos. Até o porteiro está contra mim... Eu poderia estar armado e obrigar o segurança a pedir-me desculpas. Ele ficaria mínimo na minha frente, pagaria até um danoninho novo para o barbudo aqui, para conpensar o constrangimento. Esquece. Depois? Não tenho armas, nem gosto. Talvez, se reclamasse ao gerente, quem sabe se o segurança, então demitido, não viesse atrás de mim. Em outro dia, outra noite, desempregado também e louco para me aplicar uma lição. Esse mundo cheio de esquinas, de sombras, poeiras... Eu sou o Bin Laden, é isso! Resultado da sujeira na sociedade. E o Bin Laden pode estar em qualquer lugar, até no super-mercado comprando um danoninho, para disfarçar. Comprar nada! Ele iria, é, roubar um danoninho! Tomo um banho, faço a barba. A imagem é tudo, sou um cara de bem. Ainda assustado, desabo na poltrona, ligo a TV e me delicio com meu danoninho de morango. Deu tudo certo, não houve nada de mais. Maior limpeza. A faxina?! A faxina fica pra outro dia... Ihhhh! Maior sujeira!
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Deprê de FAVELA - no morro hoje não vai ter batucada...
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A natureza de Nêgo J. (3/23/2009 - Ferréz)
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Naquele dia Nêgo J pediu para a gente ir com ele, conhecer o seu sítio... Um terreno que dizia que ía comprar. Ninguém botava muita fé no que falava. Não era nada sério, tipo o cara não tem palavra na quebrada. Era mais uma coisa assim: como ele brincava muito, pouca coisa era tida como verdade. Não sabia bem o que queria da vida, não que isso também importasse, afinal não faria diferença se ele quisesse ter outros planos. Sua vida era mais ou menos como a dos outros moradores, parecida assim como uma folha carregada pelo vento. Já tinha três filhos. O nêgo na frente do nome não era bem o efeito da sua cor, era um apelido mais por falta de criatividade, afinal tantos, pernambucos, cearás, que não tinha mais vaga pra ninguém. Era estranho sim, o jeito que se vestia: chapéu de couro, botas longas, sempre com a camisa aberta e de bermuda jeans. Quem olhasse ao longe já veria que aquele homem não se olhava no espelho, muito menos escolhia roupa para usar. A casa perto do córrego também tinha um ar de abandono, os filhos viviam brincando no escadão que dava acesso a Cohab. Subiam e desciam correndo, com um risco tremendo de caírem dentro do córrego. De uns tempos pra cá começou a aplicar nesse carro véio, um Corcel cortado na traseira, adaptado tipo caminhão, com um monte de madeira servindo de baú. Dentro dele tinha tudo, quando fazia bico de pedreiro carregava, pá, enxada, andaime. Quando decidia catar papelão era outros quinhentos. Quem nunca viu Nêgo J. molhando a imensa pilha para pesar mais? Como morava próximo a Cohab sempre olhava para o morro cheio de lixo, pensava que podia ser uma floresta. Até o dia que pirou o cabeção e foi lá com uma enxada cavar e plantar. Muita gente gozou desse homem nessa época, que tava maluco. Fazer plantação em beira de favela era coisa de desocupado, mas Nêgo J. nunca ligou pros zoutros, senão, teria que mudar sua maneira de ver as coisas e já se achava velho pra isso. E num é que o barranco virou uma plantação bonita?! Era chamada por ele de “meu sítio” e, quando ficou pronta, foi que ele parou de envolver agente nesses passeios. Sempre agente terminava em frente de um terreno cheio de mato, onde ele falava que um dia ia comprar. Mas nóis é tudo da quebrada e sabe que história bonita não dura. E o “sitio” de Nêgo J. virou ponto pra maconheiro, pra catar mulher e mais um monte de besteira, que o homem nunca aprovou. Acabou foi abandonando o lugar, cheio de mato que tá lá agora. Foi mais legal a época da mobilete, o bicho fez uma obra grande, chapiscou parede até a mão engrossar e com esse dinheiro sacou uma mobilete. A bicha fazia um barulho monstro, parecia mais um trator. Quem chegasse naquela hora, antes dele soltar a danada, diria que aquilo tudo iria pra os ares, mas em vez disso a arrancada da bicha jogava pedregulho pra traz. E foi com ela que foi pra Campinas, Juquitiba, Itapecerica da Serra. O homem varava tudo que é verde. Quando podia, lá ia ele com a camisa aberta, uma mochila véia nas costas com duas garrafas de refrigerante cheias de gasolina e muita coragem. Ou seja lá o que era aquilo. Foi muito engraçado o dia que chegou todo rasgado. Disse que um caminhão tentou matar o sonho dele de nadar na cachoeira da Biqueira. Aquele homem não podia só ficar nos bares como todo mundo? jogando seu bilhar? tomando sua pinguinha? não! Em vez disso tinha que tentar ser diferente, tinha que pensar tanto em planta. E por quê? se gostava da natureza tanto assim, como é que trabalhava de pedreiro? jogando cimento em tudo que é lugar? Acontece que Nêgo J. começou a ficar doente. Todo mundo vinha me falar que o homem tava em depressão... Na favela, pra quem não sabe, depressão é sinônimo de vagabundagem, ou até de frescura mesmo. Eu, como todo mundo, só ouvi. É tanto problema que agente acaba num se envolvendo em tudo. E além do mais, ele me devia uma obra que nunca terminou, fato que depois perdoei. Acabei falando com ele mais umas vezes, ainda mais quando estava mamado. Também, quem me culparia? O homem já chegava contando piada! Dizendo isso e aquilo de um jeito que contaminava todo mundo! A favela podia estar sinistra, que se iluminava quando ele chegava, já fazendo graça. Tem gente que é assim mesmo, vive de palhaçada, que é pra esconder alguma tristeza embutida. Tem um lugar aqui que chama parque Santo Dias. Um monte de gente corre nele, outros levam as crianças pra dar um rolé. Foi posto esse nome, dedicado a esse cara que lutou por algo de valor, pelo menos é o que todo mundo fala. Mas o fato é que todo mundo aqui chama o lugar de “mata”. Foi no meio da mata... entre as árvores mais altas, que Nêgo J. se enforcou. Diz o pessoal ai que juntou tudo, né? Desemprego, depressão, esses negócio tudo junto. Pensando bem não era frescura, nem vagabundagem. Com tanta vastidão de verde nesse pais, tudo aí parado! mas cheio de dono... Até que não era querer muito. Ter assim um pedacinho de terra com verde, pra ele de repente plantar um pouco de esperança.
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Dedicado a Nêgo Jaime. Ferréz








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2 comentários:

SMM disse...

Blog legal viu? Se puder me visite, http://sindromemm.blogspot.com

Delano Valentim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.